quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A árvore que florescia no Carnaval


            Eram romper os tambores no Sambódromo do Anhembi que a bela rosa ipê florescia, caia de seus galhos todas as folhas e nasciam flores. Diferente das árvores de sua espécie que florescem no fim do inverno, entre os meses de julho e agosto.
            Sua madeira dura e resistente é símbolo do Brasil e do bairro que mora, pois cresceu devagar até seus oito metros de altura. Sortuda nunca foi escolhida para construção civil e naval: assoalhos, eixos de rodas, peças de marcenaria, vigas...
            Provavelmente, a bela rosa ipê foi abençoada por “um anjo torto desses que vive nas sombras disse”: madeira de qualidade, árvore de casca dura, suas flores serão lindas, de geração a geração de paulistanos, pois embeleza as ruas de coração e protege os amantes do sol, da chuva, do vento e da lua. Não evita novos rebentos de novembro, mas colore de rosa os menos afoitos e depravados. “Se nossas linhas não fossem tão tortas não teriam se cruzado”.
            Chegando a quarta de cinzas, o ipê cantava triste e baixo:
“Adeus, adeus
Meu pandeiro do samba
Tamborim de Samba
Já é de madrugada

Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo” [...]

A bela rosa ipê deixava assim cair suas flores para uma vizinha aparecer em roxo: a quaresmeira.
            Sonharia com o próximo Carnaval por meses frios e quentes, quinzenas úmidas e secas, dias cheirosos e fedidos, criando novas folhas e quase sumindo entre carros e arranha-céus, junto no seu pano de guardar confetes as mais belas formas rosas de flores, pois esta planta fêmea de ipê não morria durante o ano, cantava com calma sua sina:
            “Não deixe o samba morrer
            Não deixa o samba se acabar
            O morro foi feito de samba
            De samba pra gente sambar

            Quando eu não puder mais entrar na avenida
            Quando as minhas pernas não puderem aguentar
            Levar meu corpo, junto com meu samba” [...]

 E como sempre, diferentes de outras plantas de sua espécie, florescia rosada durante os primeiros aplausos do desfile da primeira escola de samba de São Paulo no Sambódromo, deliciando-se por mais quatro noites apaixonantes...

Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social


quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Meu novo livro!

Antes disso havia um “Tempo da Graça”, de 15 a 30 dias na prisão, onde se prometia para todos os transgressores nada de açoitamentos, cortes, torturas, pedradas e similares formas de retaliação para definitiva confissão de pecados a Santa Igreja.
Antes da Inquisição Espanhola que marca o fim do Mercantilismo, era antiga, e surgimento de um novo sistema econômico: o Capitalismo. Duras penas levam as mulheres ao fogo: ao inferno na terra. Quem acredita em julgamento final não quer ter seus segredos escancarados ao Santo Ofício, a condenação é certa.
O sistema de indulgencias está arruinado para sempre e os paranormais começam agir nas estradas antecipando o bem e o mal que povoam terras e igrejas distantes, começam assim as articulações divinas, os homens mais uma vez são marionetes...

A fuga do reino espanhol não é mais suficiente, é necessária para cruzar o oceano com vida, sem escravidão, e chegar ao Novo Mundo: o Paraíso Perdido...

sábado, 20 de janeiro de 2018

Nu


           Infelizmente o nu chegou aos redores de nossos museus.
Você deve estar se perguntando: Não existem estatuas e pinturas de nu artísticos dentro dos maiores e menores acervos nacionais e internacionais de Belas Artes pelo Mundo?
Sim, há. Mas o que vou relatar não se trata de uma imagem parada ou estática em gesso, madeira, cerejeira, garapeira, pinho, cedrinho, cerâmica, argila, terracota, reboco, taipa de pilão, pau-a-pique, terra crua, metal, bronze, ouro, prata, chumbo, aço, cimento, granito, mármore, pedra sabão...
Estava tirando fotos da Catedral da Sé, em minha última excursão ao Caixa Cultural, de uma de suas magistrais janelas do sexto andar, quando vi em um dos quartos do hotel amarelo em frente ao espaço cultural, um casal nu!
Não era amor, nem sexo, era um casal nu pousando para fotos na cama, na poltrona, no chão, no parapeito da janela do hotel...
Eles não tinham noção dos olhares de fora, exatamente, do Caixa Cultural... Houve um burburinho entre outros visitantes da exposição, seguranças correndo fechando as cortinas, que davam margens ao espetáculo nu, um monte de explicações desconexas, rostos corados, muitas hipóteses, risadinhas, muito falatório, gargalhadas, muitas dúvidas, por fim, minha visita acabou antes do que eu esperava, não estava mais interessado na mostra.
As sombras tomaram o andar como se nu fosse o inimigo, proibido, perigoso, as obras do Museu da Caixa estava envergonhado, constrangido, tímido, preocupado, eu estava com as obras, mas de outro lado sereno, tranquilo, a vontade com roupa, do que vi e entendi, blá blá blá, eu cansei das cortinas fechadas, das pessoas falando, será que as pessoas não entendiam mais nada e o nu assumiu tudo?
Passei as mãos na cabeça, desci o elevador, balbuciei algo a assessorista do elevador, pedi minhas coisas a recepcionista na chapelaria, carimbos nos folders, corri para fora, para o metrô, para longe, finalmente acabei com as tormentas, os rumores e o nu tomou a proporção que devia ter, um momento de intimidade longe de tantos olhares e tantas bocas, um filme que se escolhe assistir, uma revista que se deseja rever, um local gostoso como o desejo...


Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social


quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Quebrante ou Quebranto


Rezar três vezes:
Com dois puseram
Com três eu tiro.
Com o nome do Pai,
Do Filho e do Espírito Santo,
Sai quebranto! (ORTENCIO, 1997, p. 229).

Segundo meu sobrinho e afilhado, quebrante é um malogro que se faz as meninas enquanto o quebranto é um mau-olhado feito aos meninos.
Quebranto é um estado de torpor, cansaço, languidez, quebrantamento; segundo o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, suposta influência maléfica de feitiço, por encantamento à distância. Efeito malévolo, segundo a crendice popular, que a atitude, ou seja, o olhar de algumas pessoas produz em outras, principalmente, em recém-nascidos, bebês de colo ou crianças de modo geral...
Se todos são capazes de produzir essas energias negativas ou positivas, todos também podem ser protagonistas da expansão ou expulsão destes tipos de energias...
Desfalecimento, prostração, quebramento de corpo eram registros deste fenômeno nos antigos dicionários portugueses.
Na Grécia existe, inclusive, o famoso olho grego, um talismã contra a inveja e o mau-olhado, que funciona também como um símbolo da sorte e é um poderoso instrumento contra energias negativas. Atualmente é feito de vidro, na cor azul, sendo usado como pingentes em pulseira, colares e chaveiros.
Universalmente, o mau-olhado é conhecido como mal de ojo, na Espanha; mal-occhio, para os italianos; evil eye para os ingleses e mati, para os gregos. No Brasil, considera-se quebranto quando afeta o ser humano e mau-olhado quando afeta plantas e animais...
São diversos os sintomas de quem é vítima do quebranto: olhos lacrimejantes, moleza por todo o corpo, tristeza, bocejar constante, espirros repetidos, inapetência. No caso dos animais, ficam tristes, parados e encorujados. As plantas vítimas de mau-olhado murcham sem motivo e rapidamente, às vezes da noite para o dia ou vice-versa, dependendo de quando foram atingidas pelas irradiações maléficas.
Seja quebranto, quebrante ou mau-olhado, segundo a crença popular, nem sempre ele vem de alguém invejoso. Aliás, o quebranto mais difícil de cortar provém de não invejosos. É preciso benzer com um galhinho de arruda, por três, sete ou até nove dias seguidos, acredite se quiser...

Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social





Referências


ARAÚJO, Alceu Maynard. Quebranto. In: ______. Medicina rústica. 3. ed. São Paulo: Comp. Ed. Nacional, 1979.

CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. 11. ed. rev. e atual.  São Paulo: Global, 2002. 

GASPAR, Lúcia. Quebranto e mau-olhado. Pesquisa Escolar Online, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: <http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/>. Acesso em: 31 dez. 2017.

OLHO Gordo, Mau Olhado e Quebranto, o que é e quais são os sintomas. Disponível em: <http://bomfeiticeiro.com/simpatias-feiticos-medalhas-cruzes-talismas-amuletos-de-protecao-magia-contra-feiticos/olho-gordo-mau-olhado-inveja-quebranto/>. Acesso em: 17 abr. 2013.

ORTENCIO, Bariani. Medicina popular do Centro-Oeste. 2. ed.  rev. e atual. Brasília, DF: Thesaurus, 1997.  

REZAS, benzeduras, simpatias: soluções para todos os seus males. São Paulo: Editora Três [19--?].




domingo, 31 de dezembro de 2017

Ano Novo - Carlos Drummond de Andrade

"Para ganhar um ano novo que mereça este nome, você, meu caro, tem de merecê-lo, tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil, mas tente, experimente, consciente. É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre" (Carlos Drummond de Andrade).

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Passado


            Eu não tenho medo do futuro, da próxima hora, dos próximos dias e do Ano Novo. Eu tenho medo do passado...
Tempos que não posso mudar, escolhas que se foram, histórias que não quero recontar, textos que evito reler, filmes que não insisto em assistir, discos de músicas tristes e, portanto, ruins...
            Os sonhos mudaram e os pesadelos também, ódios que se findaram e amores que não vivi, brinquedos doados e presentes que nunca abri.
            Pense bem, o que se passou são areias que escorrem pelos dedos, grãos que vão voluntariamente chegam para o chão, impulsionados pela gravidade, uma força natural e indivisível.
            Não tema o futuro, faça boas escolhas agora e reconheça que o passado pode ser esquecido, reinventado, omitido, mas nunca combatido. O tempo de ser feliz é o agora. Não perca tempo de mudar o passado, mas de tornar o futuro melhor para si e para todos...
            Feliz 2018!

Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Jorge Lima - Poema de Natal

Oh, meu Jesus .Quando você ficar assim, maiorzinho, venha pra darmos um passeio que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas que há no jardim zoológico. E, em qualquer dia feriado, iremos então, por exemplo, ver Cristo rei do corcovado. E quando passar vendo o menino, há de dizer: ali vai o filho de Nossa Senhora da Conceição.

Aquele menino que vai ali (Diversos homens logo dirão) sabe mais coisas que todos nós.

- Bom dia, Jesus (Dirá uma voz, e outras vozes cochicharão). É o belo menino que está no livro da minha primeira comunhão.
- Como está forte!
- Nada mudou.
- Que boa saúde, que boas cores. (Dirão adiante outros senhores). Mas outra gente de aspecto vário há de dizer ao ver você:
- É o menino do carpinteiro.
E vendo esses modos de operário que sai aos domingos para passear, nos convidarão para irmos juntos os camaradas visitar. E quando voltarmos pra casa, à noite, e forem para o vício os pecadores, eles sem dúvida me convidarão. Eu hei de inventar pretextos sutis para você me deixar sozinho ir.  Ah, menino Jesus, miserere nobis, segure com força a minha mão.




LIMA, Jorge de. Poemas Completos. Vol. I. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1974.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Olivia

            A primeira vez que tentou ser mulher era muito jovem, um menino ficando adolescente, despreparado e muito inseguro de si e dos outros, e foi por isso que houve muita rejeição por parte da escola, da igreja, dos vizinhos, das empresas, dos comércios, da sociedade, da época que demorava a si acabar com sua decisão...
            Ser transgênero em certa década brasileira da era moderna era o mesmo que transmitir doenças de pele, pandemia, comunismo, anarquismo, magia negra, macumba, pecado, violência, marginalidade. Era melhor ser travesti de famosa avenida movimentada de madrugada, ter um cafetão ou uma cafetina, estar preso por briga de transito, desacato...
            Por fim, Ela que não queria mais menino nem crescer como homem teve que fugir cedo e pra longe, outra cidade na zona rural, onde pode tentar fingir ser homossexual, homem sensível, homem delicado sem sucesso. O corpo estava torto, a cabeça não se encaixava direito, o barro era incorreto, vaso desforme, uma guerra perdida de mente e do corpo... corrigindo, uma luta momentaneamente acabada, pois a mente não parava com a alma inquieta e insatisfeita.
            Olivia fechara a caixa de Pandora, amarrava apertadamente os seios que insistiam em desabrochar e segurava com um colete mais que apertado, lacrava-se assim a feminilidade, ou qualquer silhueta de mulher, sua alma estava parando de gritar.
            Um anjo desses assim apareceu no trabalho, primeiro com café, depois bolos, doces, conversas longas, diárias, cotidianas, profundas, íntimas...
            Anjos de cabelos dourados que restauram a verdade e põe as coisas no lugar, determina o tempo e dá-nos subsídios, elementos, ideias, objetivos, metas, novidades, caminhos...
            Por um dia de descanso, Olivia teve a última dúvida, olhou no espelho, viu-se e não gostou do viu: cabelo curto, orelha inteira sem furo para brincos, pele lisa e opaca, rosto sem maquiagem, não precisava, mas era um desleixo total... Tremeu, lembrou-se de palavras passadas, ruídos infernais, um amor que desistiu de ter, ofensas finas, desaprovação continua, malogro...
            Assim como a tempestade cobriu sua face de lágrimas surgiu um novo alvorecer rosa conduzido por deusa matinal Aurora  e seus fieis escudeiros no canto mais puro de vida: bem-ti-vi, bem-ti-vi, bem-ti-vi!
            Era o fim da clausura, da prisão, do medo, do descompasso de mulher. Olivia abriu o baú empoeirado no porão úmido e escuro da casa apertada que escolhera viver, tirou uma calcinha furadinha, um suíte largo, sapatilhas velhinhas, vestido longo e rosado, vestiu como se vestia, então dançou como não fazia mais e estabeleceu colocando o arquinho na cabeça, corou sua nova posição de amar... O principal amor, o auto amor, amar a si mesmo acima de todas as coisas  e o espelho refletiu a alma renovada e o vaso se consertou: alma e corpo estavam juntos finalmente na velha nova mulher.


Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Uelkati

Assim que pisou “onde acaba o mar e começa a terra” já tinha devorado metade da tripulação como parasita que era...
Na sua mente havia uma dúvida: onde encontrar a definitiva imortalidade?
Uelkati devia trocar de corpo em horas, não era difícil para ele encontrar novas vítimas, cascos idiotas, moradas impuras, seu estratagema era simples: depois de uma noite de prazer, depois do fim do coito de seu hospedeiro virava a próxima vitima de costas e com um pequeno rasgo invadia as carnes do novo casulo...
Não preciso dizer que esta criatura amaldiçoada adaptava-se facilmente à outras mentes, outras culturas, outros idiomas, sem uso de desenhos, de manuais ou de mímicas, sua maldição dava-lhe essa condição, sempre seguindo a regra: um dia em cada corpo.
Foi por isso que decidiu sair da selva americana, terra de tartarugas, em que índios viviam enfurnados em montanhas distantes, por tradição, por lendas, por escolhas desastrosas...
Entre os índios, ele era conhecido como demônio velho que de tempos em tempos arrasava aldeias. Temido por gerações até a chegada do homem branco, ingênuo e delicioso homem de carne branca, humanos claros que levaram para longe sem saber do que ele se tratava. Um das poucas bênçãos concedidas pelos viajantes de alto mar aos índios da América do Norte.
Uelkati na cidade, não entendia porque tanta roupa, mas era muito feliz. Para ele os panos eram um lenço para cobrir a boca e o nariz, sentia náuseas, pois muitas vezes se enojava de tanta podridão, esgoto ao ar aberto, lixo por toda parte, poucas cores, poucos bichos, poucas plantas, muito barulho de gerigonças, fumaça excessiva, um frio brutal e preguiça constante.
Ele não precisava correr mais léguas com seu hospedeiro para manter sua parcial imortalidade, precisava colher algumas moedas... Aprendeu a dura pena a evitar os negros que eram muito castigados e explorados até o dia em que encontrou um clérigo poderoso, mas isso é uma história de “O Vampiro e A Bruxa”...




Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Corvo e o Jarro


            O jarro estava em seu lugar com pouquíssima água ao fundo, no seu interior havia muito espaço e chegou um corvo.
            O corvo estava mal, estava padecendo, o que mais queria era uma gota de água.
            A ave foi ao jarro e para seu desespero havia só um fim de água. Diferente de seus antecessores, seus antepassados, como contava ESOPO, o corvo sacudiu o jarro e terminou por derruba-lo no chão, e por muito pouco, não perdeu toda água nos giros descontrolados do jarro.
Rapidamente o corvo meteu o bico pela borda do jarro, alcançou a água, matou a sede, não formou ideia nem fez muitas tentativas.
Com alegria, o corvo levantou o jarro e viu nuvens carregadas precipitadas se aproximarem. Logo haveria mais água pra todos...


Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os morcegos

O almoço da escola já havia sido servido, caminhava, andava, fluía até sua extinção, para o fim, para seu ômega, para seu término, para subir o telhado, para o julgamento final ou juízo final, para um desfecho, para a conclusão, para quase cessação, para as vias de fato, para um último remate, para o limite do epilogo do dia...
            Do outro lado do refeitório escolar, do lado de fora, do lado direito da quadra, tremelicando surgiu três morcegos.
            Acredito que um dos mamíferos voadores era uma generosa mãe enquanto os outros eram seus filhotes desavisados, desprevenidos, cansados, desacorçoados, tentando descansar, tentando ganhar novas forças, depois de longa e duvidosa viagem...
            O barulho era grande como o alvoroço. As crianças da cidade nunca se detiveram com tais criaturinhas marrons, estavam habituados com outros tipos de mamíferos, de ratos com asas: pombos indesejados e sujos pelo pátio...
            Haviam meninas gritando de medo e meninos supersticiosos rezando tentando afastar o malogro, professores estudando de longe os bichos, funcionários espantando os bagunceiros, os baderneiros, os desajustados que tentavam lançar pedras nos animalzinhos.
            No fundo, a morcega estava exausta que fazia o mínimo para resistir e, consequentemente, seus filhotes seguiam de perto seu exemplo.
            Por fim ou para o fim, ou seja, enfim, acabou o almoço e todos os ditos humanos civilizados voltaram as salas de estudo, a quadra esvaziou-se, emudeceu-se, silenciou-se, serenou-se, apaziguou-se, embelezou-se...
            Depois do pôr-do-sol veio à noite e os morcegos foram colher amoras. Eles eram frágeis, frugívoros ou nectarívoros? Eles comeram, comeram, se alimentaram, se nutriram, se alegraram, se compraziam, se festejaram...
            Acordaram e tiveram uma pequena conversa na madrugada. A mãe estava inquieta e irredutível. Os meninos queriam ficar na coluna escolar...
            De fato, a recepção das pequenas pessoas foi a pior, os adultos tinham palavras interessantes e modos fascinantes... O convite era profano, um santo de barro, um santo de pau oco, era questão de horas para mais um desassossego, gritos, berros, espanto, bagunça, ameaça, perigo, armadilhas, tormento, a morcega não podia esperar mais, eles deveriam encontrar outras colunas, outros vizinhos mais corteses e zelosos... A mãe levou seus detentos à revelia na esperança de um lugar para chamar de seu com as palavras “Lar doce Lar” antes de o sol brilhar e o galo cantar anunciando um novo dia na escola, na quadra e na coluna fria, bege e de concreto sem natureza: flora ou fauna. A proteção estava em se esconder e não ficar mais preso de ponta cabeça para crianças...

Jorge Barboza


Escritor e Colunista Social

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Golfinho

            Gosto muito de ouvir crianças de história, ou melhor dizendo, ouvir história de  crianças. Fazer ou responder perguntas aos pequenos sempre traz muita alegria e graça a vida...
            Eu não me recordo quando foi que ouvi essa história do golfinho, nem sei como surgiu na escola que trabalhava, acredito que falávamos de piratas, de navios e de mares, dos sete mares...
            Esta expressão épica, os sete mares, aparece em diversos povos e diferentes épocas, como os gregos que os consideravam compostos pelo: o Adriático; o Arábico; o Cáspio; o Egeu; o Mediterrâneo; o Negro; o Vermelho. Outrossim, entendiam os setes mares como os setes oceanos, ou seja: Oceano Antártico; Oceano Ártico; Oceano Atlântico Norte; Oceano Atlântico Sul; Oceano Indico; Oceano Pacifico Norte; Oceano Pacifico Sul.
Identifico-me muito que essa última explicação vinda dos primeiros europeus ao chegarem a América do Norte para colonização de povoamento...
Estava eu explicando porque se fala de sete mares até hoje, uma ideia antiga, de povo bárbaro que engatinhavam pela ciência moderna e que se locomovia rapidamente de barco...
            Uma jovem de seus 7 anos, cabelos presos em chuquinhas coloridas, três para ser mais exato, disse alegremente:
            – O Golfinho é filho da Baleia com o Tubarão...
            Eu sempre fico na dúvida se a menina usou de esperteza para mudar de assunto, ou de traquinagem, para dizer que a conversa estava cansativa...
            – Como assim? – retruquei sem pestanejar nem ralear como a criança.
            – O Golfinho é meio retardo por isso, vive rindo à toa como o pai, o tubarão, e vive aos pulos nas ondas como a mãe para aparecer, a baleia...
            No fundo, eu sempre achei os golfinhos alegres de mais, de inteligência diferenciada que não os desqualifica em nada, mas se de fato um golfinho fosse o resultado de uma gestação mal sucedida entre a baleia e o tubarão não seria ele a pior espécie dos sete mares. Só me preocuparia com que seria os pais da água viva e da enguia elétrica na difícil missão de educar seus filhos para não queimar nem dar choques nos coleguinhas de natação livre...


Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social