quinta-feira, 10 de maio de 2018

Uma história de Sara

Era uma vez uma pequena princesa indiana chamada Sara.
Assim como sua mãe havia lhe ensinado todos os dias, ela orava a Deus olhando o sol, as plantas, os animais e, principalmente, as pessoas de seu vilarejo. Todos os dias ela vestia seu melhor sare acompanhado por muitas joias e flores no cabelo longo. Todos os dias ela preparava os mais deliciosos quitutes, doces e chás para sempre ouvir o pai dizer: “Como eu te amo minha filha, você foi o melhor presente que sua mãe me deixou e se um dia eu morrer como ela, eu tenho a certeza que você já sabe se cuidar. Pois nascemos e morremos sós”.
No começo Sara ficava emburrada, mas depois ia abrindo um sorriso franco para as palavras do pai, afinal ninguém pode transpor os ciclos das reencarnações sem passar pela morte.
Um dia, a guerra chegou avassaladora e levou todos os homens. As mulheres choravam muito e as crianças também pelas duvidas de um novo alvorecer.
Ao entardecer dos dias que se seguiram, mentes e corações sempre se uniam com as preces para um mundo em paz.
Demorou um pouco, a paz retornou, mas trouxe consigo  com a escravidão, poucos homens sobraram, as mulheres e as crianças foram levadas sem grilhões e amarras, todos guiados por caravanas e depois uns poucos barcos.   
Alguns dias de viagem, um novo horizonte, outra margem, um velho vento e os mesmos murmurinhos.
Uma menina da mesma idade de Sara invadiu o escale, deu lhe uma rosa branca e partiu. Era um sinal de muita sorte e Sara agradeceu a Deus, se ajoelhando e orando forte e silenciosamente não só por si, mas por todos ali.
Uns poucos instantes depois, a menina que trouxe esperança a Sara, trouxe consigo seu pai, Sara lhe deu uma pulseira linda tirada do pulso esquerdo e os três foram para Magdala.
De longe Sara foi se despedindo observando bem as águas do rio Nilo, os verdes papiros, os barcos e seus vizinhos de infância. Sara caminhava vitoriosamente sorrindo, pois Deus voltava a sorrir sorte para seu povo e principalmente para o seu futuro. A outra menina também sentia o mesmo, seu nome é Maria Madalena.
Em Magdala, não havia uma só pessoa que não falasse que Sara e Maria Madalena não eram irmãs. O pai de Maria não deixava que fosse feito de outra forma. Elas recebiam os mesmos cuidados, carinhos, tarefas, disciplinas e respeito.
Na casa de Maria Madalena não havia escravos, mas sim funcionários que trabalhavam e por isso tinham um salário no fim de cada mês. E eles independente de qualquer coisa sempre ajudavam os próximos.
Infelizmente, tudo muda e o dinheiro também. O querido pai morreu deixando algumas dívidas.
Sara e Maria Madalena vendem as joias e as propriedades na esperança de dias melhores. Ambas estão pobres e determinadas. Ambas lutam. Ambas vencem. Ambas continuam ajudando os menos afortunados.
Desabrocham rapidamente. Madalena se prostitui e Sara sai fazendo trocas e barganhas. E o que haviam perdido ganham em dobro.
Uma noite, surgi à luxuosa porta uma leprosa curada, agradecendo uma moeda dada com amor no meio do caminho por Madalena, ela conta que o Nazareno está a poucos metros dali. Ambas se olham, Sara cobre Maria Madalena e elas vão encontrar o Rabino.
Chegando lá, Ele as recebe de braços abertos. Madalena chora muito pedindo perdão pelo rumo que deu á sua vida. Sara traz uma jarra de azeite. Madalena lava os pés de Jesus com as lagrimas e seca com os longos cabelos. Sara abençoa Jesus urgindo-o com azeite na testa.
 Maria Madalena torna-se um dos três discípulos a receber ensinamentos especiais, elogiada acima de Mateus e Tomé. Dizia-se que "ela falava como mulher que conhecia o Todo". E Sara continua sempre ao seu lado dando apoio, ouvindo conselhos e conciliando.
Mais tarde, Sara admite a Jesus que não ousa falar a ele livremente porque, segundo suas palavras: "Pedro faz-me vacilar, tenho medo dele porque ele repudia as criaturas femininas". Jesus responde que quem quer que o espírito tenha inspirado é divinamente ordenado a falar, seja homem ou mulher. Sara e Maria Madalena começam operar milagres.
Ambas seguem Jesus até o fim. Mesmo quando são jogadas ao mar numa barca sem remos, sem velas e sem provisões com Maria Jacobé, Maria Salomé, José de Arimatéia e Trofino. Mesmo quando caem as primeiras gotas espessas de chuva. Mesmo quando a tempestade confundi o alto mar e as nuvens negras. Mesmo quando as ondas jogam a nau mais longe e mais perto de virar. Todos se desesperam e choram muito.
Sara retira o lenço (diklô) da cabeça, chamando por Jesus e promete que se todos se salvassem, ela jamais andara com a cabeça descoberta em sinal de respeito. Todos dão as mãos e oram fervorosamente.
Milagrosamente, a barca sem rumo aporta em Laquedor (sul da França) e Sara cumpri a promessa até o final dos seus dias, quando é encontrada morta pelos ciganos nas ondas primaveras de Saintes-Maries-de-La-Mer em 24 de maio, com sua cabeça e seus cabelos cobertos pelo lenço e sua fé.

Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social


(Este texto foi publicado este ano no livro "Entrefotos Cultura Cigana" de minha grande amiga Fatima Bessa, que você pode adquirir em: https://clubedeautores.com.br/book/204592--Entrefotos_Cultura_Cigana)

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Inimigas


Não posso deixar de registrar aqui que sou grato as minhas Inimigas, pois elas não têm dedos para me falar maldades nem falsas verdades, sem elas não há história, ou seja, conflito que renda uma boa história:



"Já tive Inimigas de todas as cores

De várias idades de pouco ódio
Com umas até certo tempo briguei
Pra outras apenas um pouco me dei

Já tive Inimigas do tipo atrevida

Do tipo acanhada, do tipo vivida
Casada carente, solteirona infeliz
Já tive Inimigas donzelas e até meretrizes

Inimigas burras e desequilibradas

Inimigas confusas, de guerra e de fofoca
Mas nenhuma delas me fez tão fugaz como você me faz

Procurei em todas as Inimigas a vingança

Mas eu não encontrei e fiquei mais forte
Foi começando mal, mas tudo teve um fim
Você é o eclipse da minha vida a minha falta de boa vontade
Você não é verdade você é mentira
É tudo que ninguém quis pra mim"...


Jorge Barboza
Colunista Social. Escritor. Revisor

quinta-feira, 19 de abril de 2018

19 de Abril - Dia do Índio

"Procure conhecer-se, por si próprio. Não permita que outros façam seu caminho por você. É sua estrada, e somente sua. Outros podem andar ao seu lado, mas ninguém pode andar por você" (Art. 3° do Código de Ética do Índio Norte-americano).

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A princesa Autista



            Muitos anos atrás quando ainda não se falava em reciclar e em ecologia, havia um reino pacato que sua constituição prezava com descontos de impostos a reutilizar os materiais variados. Para dar exemplo, sua rainha fez atrás do seu trono uma linda nave de garrafas coloridas de vidro e assim começa nossa saga...
            Ao colocar a última garrafa verde em sua nave, a rainha sentiu surgir um aroma doce, suave, bom, agradável, delicado como um vinho maduro, gostoso, saboroso de uvas recém colhidas, juntas lentamente, quase amassadas no início da confecção do mais famoso vinho de sua principal adega...
            Meses a fio esperava por este espetáculo vitral que coincidiu com o parto de sua filha, a princesa autista, linda como só ela...
            Aos cinco anos de idade, a princesinha ouvia um miado, uma campainha, um latido ou qualquer som absolutamente distante ficava parada, pensando, lendo, digerindo, devorando, degustando os sons juntos ou separados até bater palmas e colocar todos os sons nas suas ideias e, consequentemente, no lugar na sua mente...
            Aos sete anos, ela ficava por horas sem piscar, sem pestanejar, sem reclamar, sem fazer ruídos, sem espasmos, compenetrada nos rodomoinhos e espirais dos modernos arranjos do castelo quase velho...
            Com quinze, a princesa não quis baile nem festa, nem recital, queria pintar tudo: portas, maçanetas, janelas, salas, quartos, banheiros, cozinhas, jardins, tudo que via por perto do castelo.
            Com certeza não havia tempo ruim, pois todo dia era um dia bom para Princesa Autista guardar, colher, mostrar, recolher, reconhecer, desenhar, costurar, rasgar, viver, morrer, para se reinventar sem algazarras, sem guerras, só pelo simples prazer de fazer o bem sem importar com quem e como...

Jorge Barboza
Escritor. Colunista Social.

terça-feira, 20 de março de 2018

A princesa Down



            Vou começar contando como aprendi a contar historietas com uma menina riquíssima, branca, magrinha, de olhos verdes e fala mansa. Ela contava assim:
            “Era uma vez uma menina rica, que morava em uma mansão rica, com sua mãe rica, seu pai rico, sua empregada rica e seu cachorro rico”.
            “Era uma vez uma menina pobre, que morava em uma mansão pobre, com sua mãe pobre, seu pai pobre, sua empregada pobre e seu cachorro pobre”.
            Acredito que era seu melhor recurso para entender e explicar a vida e, por isso, em sua homenagem resolvi escrever o seguinte:
            Era uma vez uma menina feliz, uma princesa com síndrome de down, que vivia, sonhava e esperava por um grande amor. Um amor diferente que dava borboletas no estomago, mãos suadas, perda de apetite, aceleração no peito, rosto enrubescido... Um amor diferente do que recebia de sua mãe e de seu pai.
            A princesa não tinha servos, escravos ou empregados, mas era cercada de amigos inseparáveis. Sua nobreza não tinha doutores, enfermeiros ou professores, mas era abençoada por cuidadores e mentores.
            Uma tarde, ela furou o dedo em uma roca, doeu muito, porém a princesa não morreu nem dormiu um sono de cem anos.
            Na sua decima quinta lua, durante o baile, conheceu um monstro e não se apaixonou, não se perdeu nem enviada para longe de tudo, resistiu e continuo vivendo, sonhando e esperando o grande amor, que pode estar aqui, ali, lá, lá, à espreita ou ao mar.


Jorge Barboza
Colunista social. Escritor. Revisor

sábado, 10 de março de 2018

Boas Cercas



            Quando recentemente ouvi essa expressão “boas cercas fazem bons vizinhos”, achei que havia não compreendido. Depois, reconheci que seu significado era muito profundo. Por alguns instantes ainda balancei com o que diz nossa cultura: “amigos, amigos, negócios á parte”.
Com certeza não misturar os negócios e as amizades seria um ideal de vida, mas passamos mais de quatro horas trabalhando e, consequentemente, estabelecendo relações intrapessoais e extras pessoais curtas ou duradouras para “as cercas” de forma clara e, assim, evitar que os limites também não sejam desrespeitados.
Mas como estabelecer as cercas saudáveis, ou seja, os limites quando é inevitável a combinação amizade e negócios?
Acredito que seja uma aprendizagem para a vida toda. Aprendi que os limites devem ser estabelecidos no início das relações, continuado progressivamente, e jamais esquecidos com a interação fora e dentro das empresas.
A comunicação em todos os casos é essencialmente, não existe a possibilidade de conhecermos nossos valores, nossa ética e nossos limites sem apresenta-los. Se não reconhecemos os limites, como iremos estabelecê-los?
E, muitas vezes, se não estamos conscientes desta prática ética não percebemos o desrespeito e, depois, só depois consertamos os muros...
Como as pessoas costumam dizer “devemos fazer aos outros, o que gostaríamos que fizessem pela gente” – simplesmente porque somos todos diferentes. A honestidade deve ser nossa bussola para todos os aspectos das nossas vidas. Não funciona tratar todos os funcionários de forma igual, assim como não funciona tratar os amigos e até os filhos de forma idêntica...
Da mesma forma, temos a opção de afastar aquelas relações que não nos fazem bem e aprender a amar essas pessoas à distância. Muitas vezes, o afastamento é a opção mais ética que temos de libertá-las e nos libertar de relações em que todos saem perdendo.
Comunicar educadamente e respeitosamente é ainda o melhor procedimento para manter “boas cercas” e estabelecer “bons vizinhos”.

Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Zagro


Pior que o mal iminente é a morte súbita. Ele não podia perder mais tempo, já havia muitos mortos. Quantos mais seriam necessários para por fim ou para por começo?
O final é o inicio? O principio é outro fim? As metades que se completam ou completos que se dividem?
Zagro já tinha 54 anos, os cabelos e barbas prateavam, enquanto os braços e as pernas dobravam em curvas fortes, firmes e mágicas. Tantas batalhas, vitórias e derrotas. Aquela escolha era oportunidade para SettaS, o planeta renasceria, pararia congelado por anos e depois borbulharia ao derreter-se, queimar-se e incinerar-se. Seus diferentes habitantes não seriam consumidos ou extintos. E bem que, os Monstros Malévolos nos últimos nove dias haviam descoberto uma formula de se remontarem e assim perpetuarem suas vidas e maldades. Eles se  uniam estranhamente e formalmente: dois semimortos, dois quase vivos, dois mortos-vivos, se grudavam, se misturavam, se costuravam, se colavam e assim se tornavam uma criatura pior, nova, maior de monstruosidade.
Zagro temia que o surgimento dessa nova besta pudesse permitir outros processos idênticos, semelhantes, paercidos, ou seja, a junção de quatro semimortos, quatro quase vivos, quatro mortos-vivos. E depois: oito, dezesseis...
Até aquele momento ele sabia que havia quatro poderosos Monstros Malévolos, quatro chefões Monstros Malévolos, quatro maiorais Monstros Malévolos e suas hordas tinham diminuindo um quinto sendo consumidos por uma raça inteira de settasianos.
Zagro parou de pensar e foi à fronte da batalha, mandou que seus três pupilos levassem para bem longe seus iguais, seus semelhantes, seus replicantes. Ordenou que Dragão, Pégaso e Fênix ensina-se o que sabiam para todos, pois ele não estaria mais entre eles em breve e de fora do mundo, que conheciam, viriam alienígenas conquistadores que colocariam fim a paz, mas também viriam alienígenas conciliadores para definitivamente terminar com sua obra pela paz.
 Nesse instante os quatro poderosos Monstros Malévolos, os quatro chefões Monstros Malévolos, os quatro maiorais Monstros Malévolos mandaram sua horda terminar o que eles não podiam e as bestas cercaram Zagro, engoliram Zagro, fecharam Zagro, como um eclipse que apaga totalmente o sol por algum tempo determinado e houve um silencio enorme, as nuvens pararam, os settassianos sentiram medo, pavor, um mal pressagio, lagrimas começaram a brotar, gemidos, mãos fechando as bocas fortemente...
Uma explosão acabou com as dúvidas, muitos monstros tentavam correr, se esconder, se proteger, se livrar...
O frio levantou-se como raízes, buscando tudo, foi tornando tudo gelo cristalino, branco, alvo, cândido, tão rápido que parecia uma avalanche subindo as florestas, os rios, as cachoeiras e as montanhas, ao contrário de descer...
Os Quatro poderosos Monstros Malévolos, os quatro chefões Monstros Malévolos, os quatro maiorais Monstros Malévolos se prenderam ao chão formando com seus corpos caixões preto, escuro e duro. Metade do planeta acabou congelado e a horda de bestas foi extinta definitivamente.

O corpo de Zagro não foi encontrado até hoje, alguém disse que de seu sacrifício criaram-se sete ou seis esferas de poder. Três estão com seus pupilos e as demais foram em busca de alienígenas conciliadores.
Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social



quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

A árvore que florescia no Carnaval


            Eram romper os tambores no Sambódromo do Anhembi que a bela rosa ipê florescia, caia de seus galhos todas as folhas e nasciam flores. Diferente das árvores de sua espécie que florescem no fim do inverno, entre os meses de julho e agosto.
            Sua madeira dura e resistente é símbolo do Brasil e do bairro que mora, pois cresceu devagar até seus oito metros de altura. Sortuda nunca foi escolhida para construção civil e naval: assoalhos, eixos de rodas, peças de marcenaria, vigas...
            Provavelmente, a bela rosa ipê foi abençoada por “um anjo torto desses que vive nas sombras disse”: madeira de qualidade, árvore de casca dura, suas flores serão lindas, de geração a geração de paulistanos, pois embeleza as ruas de coração e protege os amantes do sol, da chuva, do vento e da lua. Não evita novos rebentos de novembro, mas colore de rosa os menos afoitos e depravados. “Se nossas linhas não fossem tão tortas não teriam se cruzado”.
            Chegando a quarta de cinzas, o ipê cantava triste e baixo:
“Adeus, adeus
Meu pandeiro do samba
Tamborim de Samba
Já é de madrugada

Vou-me embora chorando
Com meu coração sorrindo” [...]

A bela rosa ipê deixava assim cair suas flores para uma vizinha aparecer em roxo: a quaresmeira.
            Sonharia com o próximo Carnaval por meses frios e quentes, quinzenas úmidas e secas, dias cheirosos e fedidos, criando novas folhas e quase sumindo entre carros e arranha-céus, junto no seu pano de guardar confetes as mais belas formas rosas de flores, pois esta planta fêmea de ipê não morria durante o ano, cantava com calma sua sina:
            “Não deixe o samba morrer
            Não deixa o samba se acabar
            O morro foi feito de samba
            De samba pra gente sambar

            Quando eu não puder mais entrar na avenida
            Quando as minhas pernas não puderem aguentar
            Levar meu corpo, junto com meu samba” [...]

 E como sempre, diferentes de outras plantas de sua espécie, florescia rosada durante os primeiros aplausos do desfile da primeira escola de samba de São Paulo no Sambódromo, deliciando-se por mais quatro noites apaixonantes...

Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social