quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Jorge Lima - Poema de Natal

Oh, meu Jesus .Quando você ficar assim, maiorzinho, venha pra darmos um passeio que eu também gosto de crianças.
Iremos ver as feras mansas que há no jardim zoológico. E, em qualquer dia feriado, iremos então, por exemplo, ver Cristo rei do corcovado. E quando passar vendo o menino, há de dizer: ali vai o filho de Nossa Senhora da Conceição.

Aquele menino que vai ali (Diversos homens logo dirão) sabe mais coisas que todos nós.

- Bom dia, Jesus (Dirá uma voz, e outras vozes cochicharão). É o belo menino que está no livro da minha primeira comunhão.
- Como está forte!
- Nada mudou.
- Que boa saúde, que boas cores. (Dirão adiante outros senhores). Mas outra gente de aspecto vário há de dizer ao ver você:
- É o menino do carpinteiro.
E vendo esses modos de operário que sai aos domingos para passear, nos convidarão para irmos juntos os camaradas visitar. E quando voltarmos pra casa, à noite, e forem para o vício os pecadores, eles sem dúvida me convidarão. Eu hei de inventar pretextos sutis para você me deixar sozinho ir.  Ah, menino Jesus, miserere nobis, segure com força a minha mão.




LIMA, Jorge de. Poemas Completos. Vol. I. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1974.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Olivia

            A primeira vez que tentou ser mulher era muito jovem, um menino ficando adolescente, despreparado e muito inseguro de si e dos outros, e foi por isso que houve muita rejeição por parte da escola, da igreja, dos vizinhos, das empresas, dos comércios, da sociedade, da época que demorava a si acabar com sua decisão...
            Ser transgênero em certa década brasileira da era moderna era o mesmo que transmitir doenças de pele, pandemia, comunismo, anarquismo, magia negra, macumba, pecado, violência, marginalidade. Era melhor ser travesti de famosa avenida movimentada de madrugada, ter um cafetão ou uma cafetina, estar preso por briga de transito, desacato...
            Por fim, Ela que não queria mais menino nem crescer como homem teve que fugir cedo e pra longe, outra cidade na zona rural, onde pode tentar fingir ser homossexual, homem sensível, homem delicado sem sucesso. O corpo estava torto, a cabeça não se encaixava direito, o barro era incorreto, vaso desforme, uma guerra perdida de mente e do corpo... corrigindo, uma luta momentaneamente acabada, pois a mente não parava com a alma inquieta e insatisfeita.
            Olivia fechara a caixa de Pandora, amarrava apertadamente os seios que insistiam em desabrochar e segurava com um colete mais que apertado, lacrava-se assim a feminilidade, ou qualquer silhueta de mulher, sua alma estava parando de gritar.
            Um anjo desses assim apareceu no trabalho, primeiro com café, depois bolos, doces, conversas longas, diárias, cotidianas, profundas, íntimas...
            Anjos de cabelos dourados que restauram a verdade e põe as coisas no lugar, determina o tempo e dá-nos subsídios, elementos, ideias, objetivos, metas, novidades, caminhos...
            Por um dia de descanso, Olivia teve a última dúvida, olhou no espelho, viu-se e não gostou do viu: cabelo curto, orelha inteira sem furo para brincos, pele lisa e opaca, rosto sem maquiagem, não precisava, mas era um desleixo total... Tremeu, lembrou-se de palavras passadas, ruídos infernais, um amor que desistiu de ter, ofensas finas, desaprovação continua, malogro...
            Assim como a tempestade cobriu sua face de lágrimas surgiu um novo alvorecer rosa conduzido por deusa matinal Aurora  e seus fieis escudeiros no canto mais puro de vida: bem-ti-vi, bem-ti-vi, bem-ti-vi!
            Era o fim da clausura, da prisão, do medo, do descompasso de mulher. Olivia abriu o baú empoeirado no porão úmido e escuro da casa apertada que escolhera viver, tirou uma calcinha furadinha, um suíte largo, sapatilhas velhinhas, vestido longo e rosado, vestiu como se vestia, então dançou como não fazia mais e estabeleceu colocando o arquinho na cabeça, corou sua nova posição de amar... O principal amor, o auto amor, amar a si mesmo acima de todas as coisas  e o espelho refletiu a alma renovada e o vaso se consertou: alma e corpo estavam juntos finalmente na velha nova mulher.


Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Uelkati

Assim que pisou “onde acaba o mar e começa a terra” já tinha devorado metade da tripulação como parasita que era...
Na sua mente havia uma dúvida: onde encontrar a definitiva imortalidade?
Uelkati devia trocar de corpo em horas, não era difícil para ele encontrar novas vítimas, cascos idiotas, moradas impuras, seu estratagema era simples: depois de uma noite de prazer, depois do fim do coito de seu hospedeiro virava a próxima vitima de costas e com um pequeno rasgo invadia as carnes do novo casulo...
Não preciso dizer que esta criatura amaldiçoada adaptava-se facilmente à outras mentes, outras culturas, outros idiomas, sem uso de desenhos, de manuais ou de mímicas, sua maldição dava-lhe essa condição, sempre seguindo a regra: um dia em cada corpo.
Foi por isso que decidiu sair da selva americana, terra de tartarugas, em que índios viviam enfurnados em montanhas distantes, por tradição, por lendas, por escolhas desastrosas...
Entre os índios, ele era conhecido como demônio velho que de tempos em tempos arrasava aldeias. Temido por gerações até a chegada do homem branco, ingênuo e delicioso homem de carne branca, humanos claros que levaram para longe sem saber do que ele se tratava. Um das poucas bênçãos concedidas pelos viajantes de alto mar aos índios da América do Norte.
Uelkati na cidade, não entendia porque tanta roupa, mas era muito feliz. Para ele os panos eram um lenço para cobrir a boca e o nariz, sentia náuseas, pois muitas vezes se enojava de tanta podridão, esgoto ao ar aberto, lixo por toda parte, poucas cores, poucos bichos, poucas plantas, muito barulho de gerigonças, fumaça excessiva, um frio brutal e preguiça constante.
Ele não precisava correr mais léguas com seu hospedeiro para manter sua parcial imortalidade, precisava colher algumas moedas... Aprendeu a dura pena a evitar os negros que eram muito castigados e explorados até o dia em que encontrou um clérigo poderoso, mas isso é uma história de “O Vampiro e A Bruxa”...




Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Corvo e o Jarro


            O jarro estava em seu lugar com pouquíssima água ao fundo, no seu interior havia muito espaço e chegou um corvo.
            O corvo estava mal, estava padecendo, o que mais queria era uma gota de água.
            A ave foi ao jarro e para seu desespero havia só um fim de água. Diferente de seus antecessores, seus antepassados, como contava ESOPO, o corvo sacudiu o jarro e terminou por derruba-lo no chão, e por muito pouco, não perdeu toda água nos giros descontrolados do jarro.
Rapidamente o corvo meteu o bico pela borda do jarro, alcançou a água, matou a sede, não formou ideia nem fez muitas tentativas.
Com alegria, o corvo levantou o jarro e viu nuvens carregadas precipitadas se aproximarem. Logo haveria mais água pra todos...


Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Os morcegos

O almoço da escola já havia sido servido, caminhava, andava, fluía até sua extinção, para o fim, para seu ômega, para seu término, para subir o telhado, para o julgamento final ou juízo final, para um desfecho, para a conclusão, para quase cessação, para as vias de fato, para um último remate, para o limite do epilogo do dia...
            Do outro lado do refeitório escolar, do lado de fora, do lado direito da quadra, tremelicando surgiu três morcegos.
            Acredito que um dos mamíferos voadores era uma generosa mãe enquanto os outros eram seus filhotes desavisados, desprevenidos, cansados, desacorçoados, tentando descansar, tentando ganhar novas forças, depois de longa e duvidosa viagem...
            O barulho era grande como o alvoroço. As crianças da cidade nunca se detiveram com tais criaturinhas marrons, estavam habituados com outros tipos de mamíferos, de ratos com asas: pombos indesejados e sujos pelo pátio...
            Haviam meninas gritando de medo e meninos supersticiosos rezando tentando afastar o malogro, professores estudando de longe os bichos, funcionários espantando os bagunceiros, os baderneiros, os desajustados que tentavam lançar pedras nos animalzinhos.
            No fundo, a morcega estava exausta que fazia o mínimo para resistir e, consequentemente, seus filhotes seguiam de perto seu exemplo.
            Por fim ou para o fim, ou seja, enfim, acabou o almoço e todos os ditos humanos civilizados voltaram as salas de estudo, a quadra esvaziou-se, emudeceu-se, silenciou-se, serenou-se, apaziguou-se, embelezou-se...
            Depois do pôr-do-sol veio à noite e os morcegos foram colher amoras. Eles eram frágeis, frugívoros ou nectarívoros? Eles comeram, comeram, se alimentaram, se nutriram, se alegraram, se compraziam, se festejaram...
            Acordaram e tiveram uma pequena conversa na madrugada. A mãe estava inquieta e irredutível. Os meninos queriam ficar na coluna escolar...
            De fato, a recepção das pequenas pessoas foi a pior, os adultos tinham palavras interessantes e modos fascinantes... O convite era profano, um santo de barro, um santo de pau oco, era questão de horas para mais um desassossego, gritos, berros, espanto, bagunça, ameaça, perigo, armadilhas, tormento, a morcega não podia esperar mais, eles deveriam encontrar outras colunas, outros vizinhos mais corteses e zelosos... A mãe levou seus detentos à revelia na esperança de um lugar para chamar de seu com as palavras “Lar doce Lar” antes de o sol brilhar e o galo cantar anunciando um novo dia na escola, na quadra e na coluna fria, bege e de concreto sem natureza: flora ou fauna. A proteção estava em se esconder e não ficar mais preso de ponta cabeça para crianças...

Jorge Barboza


Escritor e Colunista Social

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Golfinho

            Gosto muito de ouvir crianças de história, ou melhor dizendo, ouvir história de  crianças. Fazer ou responder perguntas aos pequenos sempre traz muita alegria e graça a vida...
            Eu não me recordo quando foi que ouvi essa história do golfinho, nem sei como surgiu na escola que trabalhava, acredito que falávamos de piratas, de navios e de mares, dos sete mares...
            Esta expressão épica, os sete mares, aparece em diversos povos e diferentes épocas, como os gregos que os consideravam compostos pelo: o Adriático; o Arábico; o Cáspio; o Egeu; o Mediterrâneo; o Negro; o Vermelho. Outrossim, entendiam os setes mares como os setes oceanos, ou seja: Oceano Antártico; Oceano Ártico; Oceano Atlântico Norte; Oceano Atlântico Sul; Oceano Indico; Oceano Pacifico Norte; Oceano Pacifico Sul.
Identifico-me muito que essa última explicação vinda dos primeiros europeus ao chegarem a América do Norte para colonização de povoamento...
Estava eu explicando porque se fala de sete mares até hoje, uma ideia antiga, de povo bárbaro que engatinhavam pela ciência moderna e que se locomovia rapidamente de barco...
            Uma jovem de seus 7 anos, cabelos presos em chuquinhas coloridas, três para ser mais exato, disse alegremente:
            – O Golfinho é filho da Baleia com o Tubarão...
            Eu sempre fico na dúvida se a menina usou de esperteza para mudar de assunto, ou de traquinagem, para dizer que a conversa estava cansativa...
            – Como assim? – retruquei sem pestanejar nem ralear como a criança.
            – O Golfinho é meio retardo por isso, vive rindo à toa como o pai, o tubarão, e vive aos pulos nas ondas como a mãe para aparecer, a baleia...
            No fundo, eu sempre achei os golfinhos alegres de mais, de inteligência diferenciada que não os desqualifica em nada, mas se de fato um golfinho fosse o resultado de uma gestação mal sucedida entre a baleia e o tubarão não seria ele a pior espécie dos sete mares. Só me preocuparia com que seria os pais da água viva e da enguia elétrica na difícil missão de educar seus filhos para não queimar nem dar choques nos coleguinhas de natação livre...


Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

domingo, 10 de setembro de 2017

Assassinaram a laranja


            Era um inverno camarada em pleno ABC Paulista, flores despontavam discretamente nas árvores amontoadas de folhas grandes, amontoadas de galhos, sem frutos, folhagens grandes, espessas folhas e folhas verdes, verdes escuras, extremamente verdes. Haviam princípios de primavera, chuvas alternadas, típicos chuviscos, garoas de passagem, nuvens carregadas em cinza, céu anil escondendo seu azul, sol pálido, sol fraco, sol manso que parecia uma lâmpada florescente no teto do prédio de concreto bege, nude escuro, ventos frios, geladas correntes de ar, congelantes brisas que surgiam às vezes fortes e rápidos, às vezes vinham fracos e alongados...
            A paz devia ser a bandeira da estação e a prática do momento se não fosse o anúncio do jornal: “Uma laranja se jogou do 13° andar”. Não era a primeira vez que a manchete trazia a morte de frutas como capa jornalística.
            Nas últimas duas semanas foram acontecendo casos espaçados e esporádicos: o primeiro registrava uma banana encontrada morta por afogamento embaixo de uma das principais pontes de ligação das cidades de Santo André e São Bernardo do Campo em uma manhã vazia; O segundo contava que uma maça perdeu a cabeça atropelada por caminhão em cruzamento da Avenida dos Estados entre os municípios de Santo André e São Caetano do Sul em tarde mais que fria...
            Para mim, tudo soava estranho e bárbaro por demais: uma banana não sai do cacho sozinha, sem salva-vidas para águas profundas, escuras, estranhas e caudalosas; uma maça não atravessaria a rodovia com sinal fechado; uma laranja não cortaria a tela de proteção de uma janela de um certo apartamento e por descuido ou por curiosidade cairia sem precedentes...
            Provavelmente todas as frutas foram agitadas, envolvidas, coagidas, empurradas, pressionadas, instigadas, forçadas, encurraladas...
Foi que a policia revelou depois de pouco tempo, pouca investigação e muita surpresa da população em geral. Uma adolescente com seus treze anos, tinta nos cabelos... passou pelos locais e decidiu aplicar suas teorias de física as frutas pegas desprevenidas. A cada semana, a jovem foi aumentando suas doses de experimento...
Em um depoimento revelador à policia, a adolescente expressou seus fomentos, suas ideias, seus pensares, ela narrava com normalidade como colocou fogo em um broto de feijão com etanol antes de partir para as ruas. Lembrou também que eletrocutou uma beterraba molhada por sua urina no jardim de sua casa.
Seus próximos planos caminhavam para novos testes, agora, só agora, com animais vertebrados de pequeno porte até chegar aos espécimes humanos de grande relevância.
Sem alternativas, os órgãos competentes determinaram o tratamento da jovem em clínica psiquiátrica estadual para conciliação da moral e dos bons costumes com a sociedade...


Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

domingo, 20 de agosto de 2017

É o fim do amor

           Como todo início mês reuníamos em volta dos resultados das vendas para ajustamos nossos planos de vendas, adequar produtos, criar novas estratégias e, consequentemente, desenvolver novas mídias.
            Para surpresa de todos, o amor não vigou nem em sabonete, nem em banho líquido e muito menos em perfume. Na verdade não tinha saído da prateleira e o estrago só não foi maior que não foi produzido em larga escala como seus irmãos...
Cabe aí um adendo, eu chamo de irmãos, todos os produtos que são criados simultaneamente, desde de seu conceito, passando pela alquimia, até ser embalado. Descobri por isso que a palavra “embalamento” não existe no dicionário no sentido de empacotamento, mas sim como “baloiçar, no colo ou no berço, geralmente para adormecer; ato de se drogar; sentir sensação muito agradável; mentir ou dar esperanças ilusórias”. Sendo assim os produtos irmãos possuem os mesmos tipos de processamento, adicionamento, envasamento, não são genéricos, nem mesmos gêmeos parecidos, a proposta deles era outra, a cor, a vibração, enfim, eram taxados e enfrascados, guardados, armazenados, recolhidos de três formas idênticas: banho líquido, perfume e sabonete.
Era o fim do Amor, ele não vendeu como a Prosperidade e a Harmonia, então para o bem maior da empresa, dos associados, dos funcionários, dos consumidores desta e das próximas gerações optamos com grande dor pela mudança do nome do produto...
Não me venha com esse tal de moralismo! Era preciso mudar o nome do Amor, ou jogar tudo fora em questão de dias e por necessidade de armazenamento da nova produção de harmonia e de prosperidade. Acredito que distribuir como brinde para parceiros e possíveis investidores também poderia causar mais mau estar geral.
E com enorme dor no coração, amava o nome e tive um dia de insônia, um mau súbito de não comer, não relaxar, de estresse, sei lá, mais o que... Decidi agora, o Amor passaria a se chamar Paixão e não que deu certo, em uma semana vendemos o estoque todo parado e por conta disso, tivemos que pagar extras na fábrica para produção imediata de novas levas ao mercado que até momento não se deu conta que a Paixão é o mesmo Amor que só mudou de nome sem perder sua característica original, se transforma e se renova em suas três formas e com seus produtos irmãos...
           

Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Gabriela Tieta


Quando começarmos a ter problemas, achei que ele tinha um fetiche de coronel e como uma boa Gabriela estava disposta a assumir a personagem de Jorge Amado: Gabriela Cravo e Canela.
Sinceramente prefiro “Tieta do Agreste”, já treinamos o “ípsilone duplo”, este era o papel de uma vida para quebrar a rotina depois de tantas noites frias e quentes...
Como Gabriela, eu tive que aprender: “eu nasci assim, eu cresci assim e sou sempre assim, Gabriela”. Lutava pelo amor que vacilava que faltava às vezes entre nós, eu ainda lutava só pelo nosso namoro, mas o coronel não quis ir embora e cada noite ele deixava claro seu posicionamento ao dizer: “Vá se lavar que vou te usar hoje”.
O coronel acabou com nosso amor, nossos encontros, minha canela, meu cravo...
Ainda aturei um mês de dezembro inteiro como Tieta preparando sua vingança contra o povo ingrato de Santana do Agreste e Mangue Seco por conta do Natal, da família, do aniversário do coronel e do Réveillon...
Finalmente chegou o dia dos Santos Reis, hora de guardar o presépio e os enfeites natalinos, hora de acabar o namoro. O plano era simples, ligar e acabar tudo pelo telefone, o coronel era violento e eu não podia deixar ele me tocar mais...
Deixei Gabriela fugir com seu cravo e sua canela, tomei uma gostosa cerveja como Tieta e ligue para o coronel, assumi a culpa que não tinha, ouvi suas críticas, suas ofensas, ri e dei meu veredicto...
Eu era a ré, a vítima, a advogada, a promotora e a juíza. Não me traia mais:
 “Revi meu próprio percurso
Me perdi no leste
E alma renasceu
Com flores de algodão
No coração do agreste
No afã de ir e vir
Ah! Fiz de uma saudade
A felicidade pra voltar...”
... A rir
                      Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Biscoito ou bolacha

Quando eu era criança sempre entendi que biscoito se refere a todo tipo de bolacha salgada: água e sal; cream cracker, biscoito de polvilho...
Consequentemente, bolacha se refere a toda espécie de biscoito doce: amanteigados, champanhe, cookies, maisena, mantecal, sequilhos, rosquinha de pinga, sequilhos...
Outro fato interessante sobre biscoitos de minha infância e que eu adorava separar os quebrados dos inteiros e, assim, começar a comer primeiro os quebrados. Depois, em poucos casos, quebrava os biscoitos, pois ele eram pequenos de sabor queijo da marca Seven Boys chamados de salgadinhos.
Entretanto, porém, contudo o dicionário afirma que “um alimento feito de farináceo com leite ou água, açúcar ou sal, podendo conter outros ingredientes, e assados em pequenas porções de diversos formatos chama-se biscoito”, e “o biscoito de farinha de trigo ou maisena, doce ou salgado, trata-se de bolacha”.
E estranho escrever ou falar sobre isso, pois com o passar dos anos muitas coisas mudam e outras não, é o caso, por exemplo, do computador que a partir da década de 90 saiu do oculto quartel general, para ganhar empresas, escolas e lares substituindo a máquina de datilografia e com crescente sucesso sobre o ainda usado aparelho de fax, utilizado ainda em doses homeopáticas por instituições bancárias ou de variadas economias em algumas situações extraordinárias...
O que eu tenho certeza com isso tudo e que os clássicos cadernos de receitas já estão saindo de moda por consultas à sites especializados em comida à cores e ao vivo sem distinção, mas nada substitui tão bem um pão com manteiga no café da manhã como o biscoito e a bolacha, nem um bolo de chá da tarde como a bolacha e o biscoito de ontem e de hoje...


           
            Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Sete dias de Férias

Acredito que toda esposa, toda professora, toda mulher, toda pessoa precise de sete dias de férias interruptas por ano. Entendendo que férias é o direito de acordar tarde sem se preocupar com refeições, como café da manhã e o almoço, sem o dever de afazeres domésticos, como roupas e louças lavadas, e também sem se perturbar com despesas semanais, como compras de alimentos, pagamento de contas e produtos de limpeza...
 Muitas vezes cabem as mulheres esses por maiores, pois não se tratam de simples tarefas caseiras ou mazelas humanas.
Acredito que Deus tenha levado mais de sete dias pra criar o mundo e, consequentemente, mais sete dias para descansar. Na verdade, Deus não é mulher nem homem, mas onipotente, onipresente e onisciente. Sendo assim, porém, com tudo e ainda mais Ele nunca parou de trabalhar desde criou os homens independentes de suas raças, suas convecções politicas, seus credos religiosos e seus ideais culturais...
Por favor, não entendam meus argumentos como um pedido de reforma nas férias trabalhistas. Certos direitos não podem ser tirados de todos trabalhadores como uma afirmação que podemos trabalhar incansavelmente neste mundo sem descanso, com mazelas e sem remuneração adequadas. Com fraldas, bonés com garrafas de água embutidas, pote de ração na mesa para casos extremos e descanso na morte ou passagem final desta vida...
Realmente acredito que trinta dias é pouco para se renovar as energias e o equilíbrio quando se têm que cuidar de uma casa inteira com marido, filhos, bichos, contas... Escrever é uma arte e precisa de cuidado, como as férias que mal usadas trazem gastos e muito desassossego...
O desafio é ter sete dos trinta dias de férias interruptos com contas e afazeres de qualquer espécie.



           
            Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

terça-feira, 20 de junho de 2017

Inconveniente

Quando começo o programa da rádio já deixo as regras claras, as perguntas são recebidas in box a partir das quartas-feiras,podendo durante o programa haver transbordo ou fila enorme que impedi-nos de aceitar novas perguntas ao vivo.
Outra regra básica é não solicitamos dados pessoais como data de nascimento ou nome completo. Proibimos as perguntas em nome de terceiros e mais de uma pergunta por noite.
Já desisti de escrever que as questões devem ser claras, objetivas, curtas, sem rodeios e rápidas. E também desisti de falar que não precisa agradecer na hora, pois acabando gerando telas extras e desnecessárias de bate-papo em meu facebook, enquanto anoto e organiza a fila.
Outra regra essencial é informar o local de onde se envia a pergunta (cidade, estado ou país) e, principalmente qual o pseudônimo anunciar nos casos que a pessoa não quer se identificada durante a gravação.
Rigorosamente e condizente com as regras gerais recentemente me agarrei no ódio que nada nem ninguém podiam trazer sossego, repetidas vezes disse não, aquela sujeita que insistia nos últimos quinze minutos da prorrogação exigir uma reposta para terceiros, e acabou passando por cima de mim como se uma força maior fosse poupa-la, mandou seu marido entregar um bilhete ao vidente, que por práxis pediu que eu resolvesse.
Por uns instantes meu perigoso lado branco espalhou por mim o fel nas veias, brio nos olhos ardentes, os lábios secos tremendo, a cabeça zunindo com palavrões e xingamentos ressoando...
Queria rasgar o papel, colocar fogo no estúdio e por fim ao que não tinha que ter chegado ali ao paranormal na entrevista que me concedia na rádio, mas por equilíbrio destinei à pergunta ao último lugar da fila: sem força, sem desejo, sem vontade e sem pensar.
Fazer a pergunta foi um golpe de misericórdia, antes de reler as palavras do bate-papo da inconveniente, da insurgente e da divergente. Seus motivos e por menores não me afetavam e não continham palavras mágicas como: por favor, por gentileza e por obsequio...
Para variar tratavam de uma longa história com rodeios, sem clareza, sem lógica, longa por demais, sem objetividade... Infelizmente, as pessoas não sabem esperar e tem a ousadia de dizer que “as perguntas alheias são banais”, para que sua urgência não seja qualificada para os camarins, as coxias, os bastidores e os particulares.
Devia ter deixado para o depois do programa e assim dar toda atenção do paranormal e até mais recursos, mas ainda o diabinho me provou...
Alguém me disse uma vez que meu silêncio é o pior castigo que posso dar as pessoas, pois se ainda estou discutindo com alguém e por que ainda me importo com a pessoa de alguma forma...
Depois de tudo terminado, a deslegante dona da rádio saiu com seu carro e me deu o prazer de excluir sua existência dos meus sistemas... Não posso mudar o que houve e não quero, mas posso fazer diferente e em outro lugar.



Jorge Barboza
Escritor e Colunista Social

sábado, 10 de junho de 2017

Quando tudo der errado leia José Eduardo Agualusa

Tenho medo de ligar o rádio, como quem entra no metrô à hora de rush e de pico, e de que por descaso ou por maledicência alguém me pise a inteligência: “foi sem querer, desculpe-me”. Ligo o som, escondido no meu canto, encolhido como quem nem está ali, mas se por acaso os meus ouvidos tropeçam em alguma voz agressiva, desligo logo.
A seguir fecho os olhos e sonho um equino. Foi um velho capataz angolano quem me ensinou isto. Eu estava sentado nas areias de Luanda, com um caderno nos joelhos, concluindo contos. Ele veio por trás e ficou um momento observando:
- Por que faz isso? – perguntou. – A história não cabe aí!
Sentou-se ao meu lado. Disse-me que às vezes, ao dormir, lhe doía, do lado direito da cabeça, a lógica. Caminhava então até à praia, estendia-se de costas na areia, e sonhava um equino.
- Foi José Eduardo Agualusa, sabe? Ele me introduziu.
Nessa altura não compreendia quem o capataz se referia. Começou por sonhar pequenos potrinhos, muito rudimentares, só um veloz traço de castanho, só um ligeiro arco correndo no ar, mas com o tempo, à medida que desenvolvia a técnica, passou a sonhar jumentos, burros, inclusive pôneis. A ambição dele era sonhar um cavalo árabe preto.
            - Esteja atento à cor dos campos – preveniu-me. - Por exemplo, de manhã, bem cedinho, se o campo estiver liso e dourado, é bom para sonhar um pônei. O puro sangue inglês, que é um cavalo famoso pelas corridas, grande, se sonha muito bem depois que chove, e a lama anoitece a terra. Já os quartos de milha são melhor sonhados quando o vento é forte como os saltos destes belíssimos equinos.
E os centauros? Ele olhou-me atônito:
            - Centauros? Servem para alguma coisa? Centauros são animais mal sonhados, como os monotrêmatos (equidna e ornitorrinco), os pégasos ou os unicórnios. Você pode conseguir fazer bichos melhores.
Venho tentando. Nunca soube o nome do velho. Era um sujeito mediano, tranquilo como uma floresta, de olhos calmos e uma pele reluzente e clara, esticada bem sobre os ossos. Tinha uma voz tão aconchegante que, à manhã, enquanto falava, soava como brisa marinha. Uma voz daquelas devia poder transmitir-se em canções. A mim fazia-me lembrar a de Djavan.
Dizia-se naquela cidade que o capataz estivera duas semanas perdido no deserto. Salvara-se por milagre, porque ao sétimo dia São Jorge lhe apareceu nas dunas, trazendo nas mãos um frango assado e dois litros de guaraná. Ele próprio me desmentiu o milagre, até um pouco irritado:
- São Jorge?! Santo, rapaz? Quem me apareceu foi José Eduardo Agualusa.
Em todas as histórias de viajantes há sempre exageros, por vezes até mentiras inaceitáveis, ou não seriam mirabolantes. Neste momento, porém, sou ateu – uso esta palavra pela primeira vez na vida; não veem que brilha? – ele lia! Era um grande devoto de José Eduardo Agualusa e Ondjaki. Contou-me que José apareceu-lhe de tarde, trazendo nas mãos o Manual Prático de Levitação, e lhe leu o livro inteiro.
Logo depois que o achou mais recomposto, ensinou-o a sonhar equinos.
- Sonhar cavalos faz bem à alma. Lembre-se que por cada homem mau no mundo há no continente mil cavalos bons.
O meu capataz não tinha rádio. Às vezes acontecia demorar-se numa padaria, ou no boteco (havia um rádio na padaria), e o ecos das guerras alheias roubava-lhe a paz. Ele sofria com as guerras alheias. Andava pela cidade com o livro “Vendedor de Passados” debaixo do braço, tentando, sem sucesso, converter os demais. Só eu lhe dava atenção:
- Quando tudo der errado leia José Eduardo Agualusa.
Uma noite vi-o sonhar um cavalo mustang preto.
- Foi o meu primeiro grande equino – disse-me depois, exausto pelo esforço, para a semana vou tentar um quarto de milha.
Nunca mais voltei a Luanda, nunca mais o vi, mas calculo que por esta altura ele já tenha conseguido sonhar o seu Cavalo Árabe Negro. Já o deve ter lançado aos montes, estradas, campos verdes de puro sonho, e a corrida dele há de estar ressoando num ritmado trote. Um dia os cavalos virão para salvar os homens sem sono e sem sonhos.


           
            Jorge Barboza

Escritor e Colunista Social

sábado, 20 de maio de 2017

Mulher

E tão difícil escrever o que não foi dito sobre mulher.

“Uma mulher (do latim  muliere) é um ser humano adulto do sexo feminino e/ou do gênero feminino. Na infância, normalmente é denominada em português como 'menina' e, na adolescência como 'moça'. Correspondem a aproximadamente 49,5% da população humana mundial. O termo ’mulher’ é usado para indicar tanto distinções sexuais biológicas quanto distinções socioculturais”.

Mais difícil ainda é acreditar que o homem foi criado antes dela.
Gosto do simbolismo que a mulher foi criada da costela, pois não é superior com Athena que nasceu inteira e completa da cabeça de Zeus (sabedoria). E ainda, a mulher não é inferior, porque não nasceu dos pés devendo ser emasculada. Ela foi criada da costela, para acompanha o homem lado a lado.

"Uma deusa, uma louca, uma feiticeira [...] Meu Deus, ela é demais".